domingo, 16 de agosto de 2026

Duas formas de cuidar podem coexistir?

 

Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo.


Será que precisamos de escolher entre a Medicina convencional e outras formas de cuidar?


Eu acredito que não.


A Medicina baseada na evidência trouxe-nos algo precioso: a obrigação de questionar, investigar e procurar demonstrar aquilo que fazemos.


A Homeopatia não reúne hoje o mesmo consenso científico que existe noutras áreas da saúde. É uma realidade que reconheço e que não tenho dificuldade em dizer.


Mas isso não me leva a uma conclusão diferente daquela que considero fundamental:


Uma prática pode ser discutida cientificamente sem que os profissionais que a exercem tenham de ser tratados como charlatães.


Há mais de 20 anos que acompanho pessoas.


E há uma realidade que faz parte da minha experiência profissional: pessoas que chegam ao consultório com sintomas, sofrimento e histórias que carregam há muito tempo e que, posteriormente, me dizem:


"Estou melhor."


"Voltei a dormir."


"Sinto-me outra vez eu."


Não apresento estas experiências como prova científica.


Seria intelectualmente desonesto fazê-lo.


Mas também não consigo fingir que elas não existem.


São precisamente essas experiências que continuam a dar sentido ao meu trabalho.


E a ciência?


Não acredito que devamos ter medo dela.


Pelo contrário.


Acredito que a Homeopatia deve continuar a ser investigada, questionada e estudada.


Talvez alguns aspectos da sua prática ainda não estejam adequadamente traduzidos pelos modelos de investigação utilizados.


Talvez algumas das nossas convicções tenham de ser revistas.


Talvez ambas as coisas aconteçam.


É assim que a ciência deve funcionar.


Perguntar.


Testar.


Discordar.


E estar disposto a mudar de opinião perante boas evidências.


Há, porém, uma fronteira que para mim é muito clara.


Ser homeopata não significa ser contra a ciência.


Não acredito em teorias da conspiração.


Não acredito que a Medicina convencional seja uma conspiração.


Não acredito que os médicos estejam a esconder tratamentos.


Não acredito que seja necessário desconfiar de tudo aquilo que vem da ciência para defender aquilo em que acreditamos.


E também não acredito que a Homeopatia precise de negar a Medicina convencional para encontrar o seu lugar.


Não quero estar contra a ciência. Quero continuar a fazer perguntas.


Para mim, complementaridade significa exactamente isso.


Saber que existem situações que exigem diagnóstico médico, exames, medicamentos, cirurgia ou outras intervenções.


Saber reconhecer os meus limites.


Encaminhar quando é necessário.


E, ao mesmo tempo, poder acompanhar uma pessoa através da abordagem em que acredito.


Sem guerras.


Sem teorias conspirativas.


Sem promessas extraordinárias.


Sem necessidade de convencer toda a gente.


Talvez seja aqui que a Homeopatia possa encontrar o seu lugar.


Não como adversária da Medicina.


Nem como sua substituta.


Mas como uma prática que pode ser estudada, discutida e questionada — e exercida com responsabilidade por profissionais que compreendem os seus próprios limites.


Não preciso que todos concordem comigo.


E não espero que a minha experiência clínica seja suficiente para encerrar uma discussão científica.


Mas também não aceito que a ausência de consenso científico seja confundida com ausência de seriedade profissional.


Podemos discordar de uma prática sem desrespeitar quem a exerce.


E podemos defender aquilo em que acreditamos sem atacar aquilo em que os outros acreditam.


É nesse lugar que escolhi estar.