Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo.
Será que precisamos de escolher entre a Medicina convencional e outras formas de cuidar?
Eu acredito que não.
A Medicina baseada na evidência trouxe-nos algo precioso: a obrigação de questionar, investigar e procurar demonstrar aquilo que fazemos.
A Homeopatia não reúne hoje o mesmo consenso científico que existe noutras áreas da saúde. É uma realidade que reconheço e que não tenho dificuldade em dizer.
Mas isso não me leva a uma conclusão diferente daquela que considero fundamental:
Uma prática pode ser discutida cientificamente sem que os profissionais que a exercem tenham de ser tratados como charlatães.
Há mais de 20 anos que acompanho pessoas.
E há uma realidade que faz parte da minha experiência profissional: pessoas que chegam ao consultório com sintomas, sofrimento e histórias que carregam há muito tempo e que, posteriormente, me dizem:
"Estou melhor."
"Voltei a dormir."
"Sinto-me outra vez eu."
Não apresento estas experiências como prova científica.
Seria intelectualmente desonesto fazê-lo.
Mas também não consigo fingir que elas não existem.
São precisamente essas experiências que continuam a dar sentido ao meu trabalho.
E a ciência?
Não acredito que devamos ter medo dela.
Pelo contrário.
Acredito que a Homeopatia deve continuar a ser investigada, questionada e estudada.
Talvez alguns aspectos da sua prática ainda não estejam adequadamente traduzidos pelos modelos de investigação utilizados.
Talvez algumas das nossas convicções tenham de ser revistas.
Talvez ambas as coisas aconteçam.
É assim que a ciência deve funcionar.
Perguntar.
Testar.
Discordar.
E estar disposto a mudar de opinião perante boas evidências.
Há, porém, uma fronteira que para mim é muito clara.
Ser homeopata não significa ser contra a ciência.
Não acredito em teorias da conspiração.
Não acredito que a Medicina convencional seja uma conspiração.
Não acredito que os médicos estejam a esconder tratamentos.
Não acredito que seja necessário desconfiar de tudo aquilo que vem da ciência para defender aquilo em que acreditamos.
E também não acredito que a Homeopatia precise de negar a Medicina convencional para encontrar o seu lugar.
Não quero estar contra a ciência. Quero continuar a fazer perguntas.
Para mim, complementaridade significa exactamente isso.
Saber que existem situações que exigem diagnóstico médico, exames, medicamentos, cirurgia ou outras intervenções.
Saber reconhecer os meus limites.
Encaminhar quando é necessário.
E, ao mesmo tempo, poder acompanhar uma pessoa através da abordagem em que acredito.
Sem guerras.
Sem teorias conspirativas.
Sem promessas extraordinárias.
Sem necessidade de convencer toda a gente.
Talvez seja aqui que a Homeopatia possa encontrar o seu lugar.
Não como adversária da Medicina.
Nem como sua substituta.
Mas como uma prática que pode ser estudada, discutida e questionada — e exercida com responsabilidade por profissionais que compreendem os seus próprios limites.
Não preciso que todos concordem comigo.
E não espero que a minha experiência clínica seja suficiente para encerrar uma discussão científica.
Mas também não aceito que a ausência de consenso científico seja confundida com ausência de seriedade profissional.
Podemos discordar de uma prática sem desrespeitar quem a exerce.
E podemos defender aquilo em que acreditamos sem atacar aquilo em que os outros acreditam.
É nesse lugar que escolhi estar.
