Há emails que não se respondem com uma tabela de preços.
Há alguns dias recebi um.
Era de uma mãe. Uma das filhas estava doente e gostava de trazê-la à consulta. Mas havia uma dificuldade: não tinha possibilidades económicas.
Não pediu nada.
Apenas pediu ajuda.
E eu fiquei a pensar naquela frase.
O que fazemos quando alguém precisa de nós, mas não tem condições para pagar uma consulta?
Dizemos simplesmente: “Lamento. Não é possível.” E fechamos a porta?
Eu não consegui fazer isso.
E não foi apenas por causa daquela mãe.
Foi porque, ao longo dos anos, fui percebendo que há pessoas que chegam a uma consulta já cansadas de fazer contas. Pessoas que adiam aquilo de que precisam porque há sempre outra coisa mais urgente para pagar. Pessoas que gostariam de procurar ajuda, mas que nem sempre conseguem transformar essa vontade numa possibilidade.
Talvez isto tenha também muito a ver com o lugar de onde venho.
Antes de estar aqui, fiz muitos outros trabalhos na minha adolescência. Fui servente de pedreiro, trabalhei em cafés, bares, vendi cachorros-quentes na rua, vendi fotocopiadoras, etc.
Sei o que é trabalhar muito e ganhar pouco.
E depois estudei. Estudei muito.
Houve noites (muitas) em que os olhos já pesavam tanto que acabava por adormecer com a cabeça em cima dos livros.
Mas no dia seguinte, voltava.
Sei, por isso, que o caminho nem sempre é fácil. Sei o que é querer chegar a algum lado e ter de continuar, mesmo quando as condições não são as melhores.
Talvez seja por isso que, quando alguém me diz “eu não consigo pagar”, eu não consiga ouvir apenas uma dificuldade financeira.
Ouço uma pessoa.
Uma mãe. Um pai. Um filho.
Alguém que está a pedir ajuda.
Foi também por isso que escolhi trabalhar numa clínica onde consigo manter as minhas despesas mais baixas.
Não preciso de ter custos mais altos.
Prefiro ter alguma margem para poder baixar o valor quando alguém precisa.
Não faço isto por heroísmo. Não faço para ser diferente.
Faço porque não quero virar as costas a alguém que precisa de mim apenas porque não tem dinheiro para pagar o preço da consulta.
Porque talvez o verdadeiro valor daquilo que construímos na vida não esteja apenas naquilo que conseguimos alcançar.
Talvez esteja também naquilo que fazemos quando finalmente temos alguma coisa para dar.
Eu lutei muito para chegar aqui.
E, precisamente por isso, não quero que aquilo que consegui construir sirva para me afastar de quem tem menos.
Quero que sirva para abrir uma porta.
Uma porta que, para algumas pessoas, talvez estivesse fechada.
E se um dia uma mãe me escrever a dizer: “Eu preciso de ajuda. Mas não consigo pagar.”
Eu quero continuar a poder responder: “Venha. Vamos ver como podemos fazer.”


