terça-feira, 1 de setembro de 2026

Não estou doente. Mas não me sinto bem.

Há pessoas que me dizem isto no consultório.

Os exames estão normais.

Não há nenhuma doença importante.

O médico diz que não há motivo para preocupação.

E, no entanto, quando lhes pergunto como se sentem, a resposta é outra:

"Não me sinto bem."

Dormem, mas acordam cansadas.

Têm dores que aparecem e desaparecem.

A digestão já não é a mesma.

Dormem pior.

Sentem-se mais ansiosas, irritáveis ou sem energia.

E, aos poucos, começam a habituar-se.

"É da idade."

"É do stress."

"Tenho de aprender a viver com isto."

Talvez.

Mas talvez valha a pena fazer outra pergunta:

E se o facto de não existir uma doença não significar que está tudo bem?

Um corpo não precisa de estar doente para nos dizer que alguma coisa mudou.

E uma pessoa não é apenas o resultado dos seus exames.

É a forma como dorme.

Como come.

Como reage ao stress.

Como se sente.

Como vive.

Como atravessa cada dia.

É por isso que, numa consulta, não me interessa apenas saber qual é o sintoma.

Quero conhecer a pessoa que está por trás dele.

Há mais de 20 anos que é assim que trabalho.

Não para substituir o diagnóstico ou o tratamento médico quando são necessários.

Mas para olhar para aquilo que, muitas vezes, fica entre o "não tem nada de grave" e o "não me sinto bem".

Porque esse espaço também merece ser escutado e valorizado.

E talvez a primeira coisa que precisamos de fazer não seja procurar um nome para aquilo que sentimos.

Talvez seja simplesmente não deixar de ouvir o que o nosso corpo nos está a dizer.

A Homeopatia pode ajudar a viver com mais qualidade.

domingo, 16 de agosto de 2026

Duas formas de cuidar podem coexistir?

 

Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo.


Será que precisamos de escolher entre a Medicina convencional e outras formas de cuidar?


Eu acredito que não.


A Medicina baseada na evidência trouxe-nos algo precioso: a obrigação de questionar, investigar e procurar demonstrar aquilo que fazemos.


A Homeopatia não reúne hoje o mesmo consenso científico que existe noutras áreas da saúde. É uma realidade que reconheço e que não tenho dificuldade em dizer.


Mas isso não me leva a uma conclusão diferente daquela que considero fundamental:


Uma prática pode ser discutida cientificamente sem que os profissionais que a exercem tenham de ser tratados como charlatães.


Há mais de 20 anos que acompanho pessoas.


E há uma realidade que faz parte da minha experiência profissional: pessoas que chegam ao consultório com sintomas, sofrimento e histórias que carregam há muito tempo e que, posteriormente, me dizem:


"Estou melhor."


"Voltei a dormir."


"Sinto-me outra vez eu."


Não apresento estas experiências como prova científica.


Seria intelectualmente desonesto fazê-lo.


Mas também não consigo fingir que elas não existem.


São precisamente essas experiências que continuam a dar sentido ao meu trabalho.


E a ciência?


Não acredito que devamos ter medo dela.


Pelo contrário.


Acredito que a Homeopatia deve continuar a ser investigada, questionada e estudada.


Talvez alguns aspectos da sua prática ainda não estejam adequadamente traduzidos pelos modelos de investigação utilizados.


Talvez algumas das nossas convicções tenham de ser revistas.


Talvez ambas as coisas aconteçam.


É assim que a ciência deve funcionar.


Perguntar.


Testar.


Discordar.


E estar disposto a mudar de opinião perante boas evidências.


Há, porém, uma fronteira que para mim é muito clara.


Ser homeopata não significa ser contra a ciência.


Não acredito em teorias da conspiração.


Não acredito que a Medicina convencional seja uma conspiração.


Não acredito que os médicos estejam a esconder tratamentos.


Não acredito que seja necessário desconfiar de tudo aquilo que vem da ciência para defender aquilo em que acreditamos.


E também não acredito que a Homeopatia precise de negar a Medicina convencional para encontrar o seu lugar.


Não quero estar contra a ciência. Quero continuar a fazer perguntas.


Para mim, complementaridade significa exactamente isso.


Saber que existem situações que exigem diagnóstico médico, exames, medicamentos, cirurgia ou outras intervenções.


Saber reconhecer os meus limites.


Encaminhar quando é necessário.


E, ao mesmo tempo, poder acompanhar uma pessoa através da abordagem em que acredito.


Sem guerras.


Sem teorias conspirativas.


Sem promessas extraordinárias.


Sem necessidade de convencer toda a gente.


Talvez seja aqui que a Homeopatia possa encontrar o seu lugar.


Não como adversária da Medicina.


Nem como sua substituta.


Mas como uma prática que pode ser estudada, discutida e questionada — e exercida com responsabilidade por profissionais que compreendem os seus próprios limites.


Não preciso que todos concordem comigo.


E não espero que a minha experiência clínica seja suficiente para encerrar uma discussão científica.


Mas também não aceito que a ausência de consenso científico seja confundida com ausência de seriedade profissional.


Podemos discordar de uma prática sem desrespeitar quem a exerce.


E podemos defender aquilo em que acreditamos sem atacar aquilo em que os outros acreditam.


É nesse lugar que escolhi estar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O peso do "é normal"


Há um momento curioso na vida.

Não acontece de um dia para o outro. Vai acontecendo devagar.

A dor nas costas passa a fazer parte da manhã. O intestino "sempre foi assim". Dormir mal tornou-se normal. A energia já não é a mesma, mas "a idade também não perdoa". As dores de cabeça aparecem de vez em quando. A ansiedade tornou-se uma companhia discreta.

E, sem darmos conta, deixamos de perguntar porquê.

Adaptamo-nos.

O ser humano tem uma extraordinária capacidade para se habituar. Até ao desconforto. Até ao sofrimento.

Mas habituarmo-nos a um sintoma não significa que ele faça parte de nós.

Nem sempre existe uma solução simples. Nem sempre desaparece tudo com um tratamento. A saúde não é uma promessa de perfeição.

Mas acredito que há uma pergunta que vale sempre a pena fazer:

Será que tenho vivido demasiado tempo a aceitar como inevitável aquilo que talvez merecesse ser compreendido?

Uma consulta nem sempre começa por encontrar respostas.

Às vezes começa apenas por recuperar uma pergunta que já tínhamos deixado de fazer.

Porque não considerar a Homeopatia?

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Um dia vai encontrar-se consigo próprio


Não com a pessoa que é hoje.

Com aquela que terá daqui a vinte anos.

Não sabe exatamente onde será esse encontro.

Nem quando.

Mas ele vai acontecer.

E, quando esse dia chegar, haverá uma pergunta inevitável.

"Como cuidaste de mim enquanto ainda tinhas tempo?"

Gosto de imaginar que a pessoa que serei daqui a vinte anos depende, em parte, das pequenas decisões que tomo hoje.

Não das extraordinárias.

Das quase invisíveis.

Dormir um pouco melhor.

Caminhar mais um bocadinho.

Aprender a descansar.

Comer de forma que o meu corpo reconheça como cuidado e não apenas como combustível.

Há vinte e cinco anos fiz uma escolha alimentar baseada em alimentos de origem vegetal.

Não porque acreditasse em soluções milagrosas.

Mas porque fazia sentido para a forma como entendo a saúde e a vida.

Continuo a pensar da mesma maneira.

Talvez seja por isso que nunca consegui olhar para uma consulta apenas como um lugar onde se trata uma doença.

Sempre senti que era também um lugar onde se cuida do futuro.

A Homeopatia faz parte dessa forma de olhar para a saúde.

Não isoladamente.

Mas integrada com tudo aquilo que sabemos contribuir para um envelhecimento mais saudável: alimentação, movimento, sono, acompanhamento médico e escolhas diárias.

Um dia vou encontrar-me com o homem que serei daqui a vinte anos.

Gostava que, quando esse dia chegar, ele olhasse para mim...

...e sorrisse.