Estamos a assistir a uma transformação silenciosa da sociedade. Uma transformação tão profunda, que talvez só daqui a muitos anos consigamos perceber verdadeiramente o impacto que teve na nossa relação com o corpo, com a comida e connosco próprios.
Medicamentos como Ozempic, Mounjaro ou Wegovy, podem ser extremamente úteis e importantes em situações clínicas específicas. Isso não está em causa. O problema começa quando deixamos de os usar apenas para tratar doença e passamos a utilizá-los para perseguir um ideal.
Porque, de forma lenta mas muito evidente, estamos a entrar numa cultura onde emagrecer deixou de ser apenas uma questão de saúde. Passou a ser uma forma de validação social.
O Perigo dos Elogios Automáticos
Hoje, perder peso gera elogios automáticos. Mesmo quando ninguém sabe:
- Se a pessoa está saudável;
- Se está a perder músculo;
- Se está emocionalmente destruída;
- Se está a desenvolver uma relação doentia com a comida;
- Ou se simplesmente deixou de conseguir alimentar-se normalmente.
Estamos a criar uma sociedade onde a fome começa a ser vista como um inimigo. Onde comer menos é admirado. Onde o autocontrolo alimentar é romantizado. Onde o corpo magro se transforma, silenciosamente, num símbolo de superioridade. E isso é profundamente perigoso.
"Quanto menos espaço ocupares, mais aceitação vais receber."
Porque quem conhece de perto uma anorexia nervosa sabe que estas doenças raramente começam apenas na comida. Começam muitas vezes na comparação, na vergonha, na necessidade de aceitação, na sensação de nunca ser suficiente. Na ideia de que o nosso valor aumenta à medida que o corpo diminui.
E talvez seja isso que mais me preocupa em tudo isto. Estamos a criar um ambiente cultural onde milhões de pessoas são diariamente expostas à mesma mensagem: “quanto menos ocupares, mais aceitação vais receber.” É impossível que isto não tenha consequências psicológicas profundas.
Sobretudo nos mais vulneráveis:
- Adolescentes e jovens adultos;
- Pessoas ansiosas ou deprimidas;
- Pessoas com baixa auto-estima ou perturbações alimentares.
A Indústria da Compensação
Ao mesmo tempo, cresce outra indústria: a da compensação. Porque depois do emagrecimento rápido aparecem as carências nutricionais, a perda muscular, a fadiga, a queda de cabelo, a fragilidade física e a necessidade de suplementar tudo aquilo que o corpo deixou de receber naturalmente.
E é aqui que a sociedade se torna contraditória: primeiro normalizamos medicamentos para reduzir drasticamente a ingestão alimentar; depois normalizamos suplementos para tentar reparar as consequências dessa mesma redução. Tudo isto enquanto continuamos a elogiar corpos cada vez mais magros.
A Nova Crueldade do Julgamento
Mas existe algo ainda mais cruel. As pessoas que continuam com excesso de peso — mesmo tentando, mesmo sofrendo, mesmo lutando diariamente — correm agora o risco de ser ainda mais julgadas.
Numa sociedade onde emagrecer parece finalmente “fácil”, quem não emagrece passa rapidamente a ser visto como preguiçoso, desleixado, sem disciplina ou incapaz. E isso é profundamente injusto.
Porque o peso nunca foi apenas uma questão de força de vontade. Nunca foi assim tão simples. Os corpos não são iguais. As histórias não são iguais. O sofrimento não é igual.
Por uma Medicina Mais Humana
A medicina deve ajudar pessoas. Não criar novos padrões impossíveis de atingir. Precisamos urgentemente de recuperar uma ideia de saúde mais humana. Mais equilibrada. Menos obsessiva.
Porque uma sociedade saudável não é aquela onde toda a gente emagrece. É aquela onde as pessoas conseguem viver sem odiar o próprio corpo.





