sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Escolhi uma porta aberta…

 


Há emails que não se respondem com uma tabela de preços.


Há alguns dias recebi um.


Era de uma mãe. Uma das filhas estava doente e gostava de trazê-la à consulta. Mas havia uma dificuldade: não tinha possibilidades económicas.


Não pediu nada.


Apenas pediu ajuda.


E eu fiquei a pensar naquela frase.


O que fazemos quando alguém precisa de nós, mas não tem condições para pagar uma consulta?


Dizemos simplesmente: “Lamento. Não é possível.” E fechamos a porta?


Eu não consegui fazer isso.


E não foi apenas por causa daquela mãe.


Foi porque, ao longo dos anos, fui percebendo que há pessoas que chegam a uma consulta já cansadas de fazer contas. Pessoas que adiam aquilo de que precisam porque há sempre outra coisa mais urgente para pagar. Pessoas que gostariam de procurar ajuda, mas que nem sempre conseguem transformar essa vontade numa possibilidade.


Talvez isto tenha também muito a ver com o lugar de onde venho.


Antes de estar aqui, fiz muitos outros trabalhos na minha adolescência. Fui servente de pedreiro, trabalhei em cafés, bares, vendi cachorros-quentes na rua, vendi fotocopiadoras, etc.


Sei o que é trabalhar muito e ganhar pouco.


E depois estudei. Estudei muito.


Houve noites (muitas) em que os olhos já pesavam tanto que acabava por adormecer com a cabeça em cima dos livros.


Mas no dia seguinte, voltava.


Sei, por isso, que o caminho nem sempre é fácil. Sei o que é querer chegar a algum lado e ter de continuar, mesmo quando as condições não são as melhores.


Talvez seja por isso que, quando alguém me diz “eu não consigo pagar”, eu não consiga ouvir apenas uma dificuldade financeira.


Ouço uma pessoa.


Uma mãe. Um pai. Um filho.


Alguém que está a pedir ajuda.


Foi também por isso que escolhi trabalhar numa clínica onde consigo manter as minhas despesas mais baixas. 


Não preciso de ter custos mais altos. 


Prefiro ter alguma margem para poder baixar o valor quando alguém precisa. 


Não faço isto por heroísmo. Não faço para ser diferente.


Faço porque não quero virar as costas a alguém que precisa de mim apenas porque não tem dinheiro para pagar o preço da consulta.


Porque talvez o verdadeiro valor daquilo que construímos na vida não esteja apenas naquilo que conseguimos alcançar.

Talvez esteja também naquilo que fazemos quando finalmente temos alguma coisa para dar.

Eu lutei muito para chegar aqui.

E, precisamente por isso, não quero que aquilo que consegui construir sirva para me afastar de quem tem menos.

Quero que sirva para abrir uma porta.

Uma porta que, para algumas pessoas, talvez estivesse fechada.

E se um dia uma mãe me escrever a dizer: “Eu preciso de ajuda. Mas não consigo pagar.”

Eu quero continuar a poder responder: “Venha. Vamos ver como podemos fazer.”

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Não estou doente. Mas não me sinto bem.

Há pessoas que me dizem isto no consultório.

Os exames estão normais.

Não há nenhuma doença importante.

O médico diz que não há motivo para preocupação.

E, no entanto, quando lhes pergunto como se sentem, a resposta é outra:

"Não me sinto bem."

Dormem, mas acordam cansadas.

Têm dores que aparecem e desaparecem.

A digestão já não é a mesma.

Dormem pior.

Sentem-se mais ansiosas, irritáveis ou sem energia.

E, aos poucos, começam a habituar-se.

"É da idade."

"É do stress."

"Tenho de aprender a viver com isto."

Talvez.

Mas talvez valha a pena fazer outra pergunta:

E se o facto de não existir uma doença não significar que está tudo bem?

Um corpo não precisa de estar doente para nos dizer que alguma coisa mudou.

E uma pessoa não é apenas o resultado dos seus exames.

É a forma como dorme.

Como come.

Como reage ao stress.

Como se sente.

Como vive.

Como atravessa cada dia.

É por isso que, numa consulta, não me interessa apenas saber qual é o sintoma.

Quero conhecer a pessoa que está por trás dele.

Há mais de 20 anos que é assim que trabalho.

Não para substituir o diagnóstico ou o tratamento médico quando são necessários.

Mas para olhar para aquilo que, muitas vezes, fica entre o "não tem nada de grave" e o "não me sinto bem".

Porque esse espaço também merece ser escutado e valorizado.

E talvez a primeira coisa que precisamos de fazer não seja procurar um nome para aquilo que sentimos.

Talvez seja simplesmente não deixar de ouvir o que o nosso corpo nos está a dizer.

A Homeopatia pode ajudar a viver com mais qualidade.

domingo, 16 de agosto de 2026

Duas formas de cuidar podem coexistir?

 

Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo.


Será que precisamos de escolher entre a Medicina convencional e outras formas de cuidar?


Eu acredito que não.


A Medicina baseada na evidência trouxe-nos algo precioso: a obrigação de questionar, investigar e procurar demonstrar aquilo que fazemos.


A Homeopatia não reúne hoje o mesmo consenso científico que existe noutras áreas da saúde. É uma realidade que reconheço e que não tenho dificuldade em dizer.


Mas isso não me leva a uma conclusão diferente daquela que considero fundamental:


Uma prática pode ser discutida cientificamente sem que os profissionais que a exercem tenham de ser tratados como charlatães.


Há mais de 20 anos que acompanho pessoas.


E há uma realidade que faz parte da minha experiência profissional: pessoas que chegam ao consultório com sintomas, sofrimento e histórias que carregam há muito tempo e que, posteriormente, me dizem:


"Estou melhor."


"Voltei a dormir."


"Sinto-me outra vez eu."


Não apresento estas experiências como prova científica.


Seria intelectualmente desonesto fazê-lo.


Mas também não consigo fingir que elas não existem.


São precisamente essas experiências que continuam a dar sentido ao meu trabalho.


E a ciência?


Não acredito que devamos ter medo dela.


Pelo contrário.


Acredito que a Homeopatia deve continuar a ser investigada, questionada e estudada.


Talvez alguns aspectos da sua prática ainda não estejam adequadamente traduzidos pelos modelos de investigação utilizados.


Talvez algumas das nossas convicções tenham de ser revistas.


Talvez ambas as coisas aconteçam.


É assim que a ciência deve funcionar.


Perguntar.


Testar.


Discordar.


E estar disposto a mudar de opinião perante boas evidências.


Há, porém, uma fronteira que para mim é muito clara.


Ser homeopata não significa ser contra a ciência.


Não acredito em teorias da conspiração.


Não acredito que a Medicina convencional seja uma conspiração.


Não acredito que os médicos estejam a esconder tratamentos.


Não acredito que seja necessário desconfiar de tudo aquilo que vem da ciência para defender aquilo em que acreditamos.


E também não acredito que a Homeopatia precise de negar a Medicina convencional para encontrar o seu lugar.


Não quero estar contra a ciência. Quero continuar a fazer perguntas.


Para mim, complementaridade significa exactamente isso.


Saber que existem situações que exigem diagnóstico médico, exames, medicamentos, cirurgia ou outras intervenções.


Saber reconhecer os meus limites.


Encaminhar quando é necessário.


E, ao mesmo tempo, poder acompanhar uma pessoa através da abordagem em que acredito.


Sem guerras.


Sem teorias conspirativas.


Sem promessas extraordinárias.


Sem necessidade de convencer toda a gente.


Talvez seja aqui que a Homeopatia possa encontrar o seu lugar.


Não como adversária da Medicina.


Nem como sua substituta.


Mas como uma prática que pode ser estudada, discutida e questionada — e exercida com responsabilidade por profissionais que compreendem os seus próprios limites.


Não preciso que todos concordem comigo.


E não espero que a minha experiência clínica seja suficiente para encerrar uma discussão científica.


Mas também não aceito que a ausência de consenso científico seja confundida com ausência de seriedade profissional.


Podemos discordar de uma prática sem desrespeitar quem a exerce.


E podemos defender aquilo em que acreditamos sem atacar aquilo em que os outros acreditam.


É nesse lugar que escolhi estar.