Há um momento em todas as primeiras consultas que nunca deixou de me impressionar.
A porta abre-se. Cumprimentamo-nos. Sentamo-nos frente a frente. Até aí somos apenas dois desconhecidos.
E, no entanto, basta que passem alguns minutos para acontecer uma coisa extraordinária.
Alguém começa a contar-me a sua vida.
Não apenas aquilo que dói. Mas aquilo que preocupa. O que desgasta. O que mudou. O que ficou por dizer durante demasiado tempo.
Ao longo de mais de vinte anos de consultas, aprendi que isto nunca deve ser visto como uma rotina.
É um privilégio.
Vivemos numa época em que as pessoas passam o dia a conversar. Mas nem sempre encontram um lugar onde sintam que podem falar sem serem interrompidas, apressadas ou julgadas.
Talvez por isso me continue a surpreender a confiança com que, muitas vezes, um desconhecido decide abrir uma parte tão íntima da sua vida a alguém que acabou de conhecer.
Há consultas em que quase toda a conversa gira em torno dos sintomas.
Há outras em que os sintomas acabam por ocupar muito pouco espaço.
Porque, de repente, percebemos que aquilo que verdadeiramente precisava de ser ouvido era outra coisa.
Não sei se alguma vez nos habituamos a esse momento.
Eu, pelo menos, espero nunca me habituar.
Espero nunca achar normal que alguém entre no meu consultório e me entregue, durante uma hora, uma parte da sua história.
Essa confiança traz consigo uma responsabilidade silenciosa.
A responsabilidade de escutar com atenção.
De não tirar conclusões demasiado cedo.
De respeitar o tempo de cada pessoa.
E de nunca esquecer que, antes de qualquer tratamento, existe sempre um ser humano que espera ser compreendido.
Ao fim de todos estes anos, continuo a pensar que a consulta começa muito antes de qualquer decisão clínica.
Começa no instante em que alguém sente que pode falar sem receio.
Talvez seja esse o momento mais importante de todos.
Porque há coisas que só começam a mudar quando, pela primeira vez, encontram um lugar onde podem finalmente ser ditas.
